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CAVALEIROS - alusão aos Templários, às Cruzadas e à Távola Redonda. HERMON - o termo remete-nos ao Monte Hermon, em cujo topo se forma a neblina que se condensa em forma de garoa, o orvalho consagrado pelo Salmo 133. Essa precipitação "tolda parcialmente o sol escaldante do sul do Líbano, e umedece seu solo, transformando-o numa das regiões mais férteis e amenas do Oriente Médio."

Nós Cavaleiros do Hermon, na constante busca para tornar feliz a humanidade, sob a égide do Grande Arquiteto do Universo, que é Deus, nos reunimos às sextas-feiras a partir das 20h00 , na Avenida Pompéia, 1402 - Templo Ir.'. Willian Bucheb - São Paulo - SP.

sexta-feira, 25 de março de 2016

O RITO DE INICIAÇÃO: UMA ABORDAGEM ANTROPOLÓGICA


Pelo Ven.’. Ir.'. William Almeida de Carvalho 33

O presente trabalho busca estabelecer alguns conceitos antropológicos para se analisar, em seguida, o rito de iniciação maçônico no R.’.E.’.A.’.A.’. como uma busca de apaziguamento da ânsia do sagrado que a humanidade vem procurando nos últimos tempos.
A Função Social do Rito
Um dos componentes fundamentais dos grupos e das sociedades humanas é o processo ritual. Os ritos e as cerimônias permeiam todo o grupamento social, desde as sociedades primitivas até as modernas sociedades pós-industriais. Os antropólogos contemporâneos afirmam que temos um comportamento ritual quando amamos e fuzilamos, quando nascemos e morremos, quando noivamos ou casamos, quando ordenamos e oramos. Os rituais revelam os valores mais profundos do comportamento humano e o estudo dos ritos tornou-se a chave para compreender-se a constituição essencial das sociedades humanas.
Se o processo ritual é tão remoto quanto a própria criação do Homem, o estudo sistemático e científico dos ritos advém com a formação da antropologia no século XIX.
Estudam-se hoje os ritos como um fenômeno social que possui um espaço independente, isto é, como um objeto dotado de uma autonomia relativa em termos de outros domínios do mundo social, e não mais como um dado secundário, uma espécie de apêndice ou agente específico e nobre dos atos classificados como mágicos pelos estudiosos.
Essa autonomia relativa da antropologia foi conseguida a duras penas no processo de formação da própria antropologia. Os antropólogos ingleses, da época vitoriana, evolucionistas e etnocêntricos, estudavam os fenômenos mágicos e ritualísticos das sociedades primitivas como um meio, no fundo, de provar a superioridade biológica e cultural do europeu de então. Para os estudiosos da época, o ritual não surgia como algo socialmente relevante, pois nem mesmo o fato social existia conceitualmente como algo socialmente independente, como viria a ser descoberto pela sociologia de Durkheim posteriormente.
Para os antropólogos vitorianos, por desconhecerem o fato social, reduzia-se o mesmo às suas componentes biológica, psicológica ou geográfica.
Para os reducionistas biológicos, os fenômenos sociais ou antropológicos eram explicados como resultantes de tensões e caracteres raciais. O social submergia no biológico do mesmo modo que o diferente, o outro, desaparecia na sua história natural.
Na outra vertente, a do reducionismo psicológico do século XIX, o social se liquefaz na vontade dos agentes individuais, vontade, depois projetada, por meio de um fiat obscuro para toda a sociedade. Segundo o antropólogo brasileiro Roberto da Matta, na apresentação do livro clássico de Van Gennep, Os Ritos de Passagem, “Tylor é um excelente exemplo desta posição (psicológica). Ele (Tylor) explica a origem da religião como uma especulação na crença da alma, especulação que nasce dos sonhos dos primitivos. Sonhando com tudo e principalmente com os mortos, os homens primitivos descobrem diz Tylor a noção de alma, de imagem, de duplo e assim constroem o domínio do ‘outro mundo’, o domínio do sagrado e do sobrenatural. Descobrem também, segundo o mesmo estudioso, que pode haver uma relação entre os dois domínios e procuram então controlar um pelo outro. Estaria agora fundada a estrutura mais elementar da religião: a crença em espírito e em almas e a condição necessária a esta crença, a divisão entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Daí, como sabemos, o nome ‘animismo’ para designar a religiosidade básica e enganada do primitivo. Nesta perspectiva psicológica, que engloba estudiosos de Tylor e Frazer, o interesse é discutir o religioso em suas formas mais primitivas, fazendo um corte evidente entre as religiões com tradição escrita (do Ocidente e, às vezes, das grandes civilizações) e a magia, forma de religiosidade vigente nos grupos tribais, selvagens e primitivos” (pg. 13).
A terceira variante explicativa era a do reducionismo geográfico ou ecológico. Reduzia-se, mais uma vez, o social à dinâmica dos climas, dos solos, das vegetações, do regime de chuvas e ventos. Presume-se que até mesmo o escritor brasileiro Euclides da Cunha, em “Os Sertões”, sofreu este reducionismo geográfico ao explicar o comportamento do sertanejo.
Todos esses três reducionismos biológico, psicológico e geográfico liquidam o social como um fenômeno específico de estudo. Contudo, a tomada do fato social como um fenômeno não explicável nem pela biologia, nem pela psicologia e muito menos pela geografia, nasce da tradição francesa de Comte e, sobretudo pela sociologia de Émile Durkheim. Já não se trata aqui de subdividir o social para estudá-lo, fazendo dele um fenômeno individualizado e redutível a uma de suas partes, mas tomar o estudo da sociedade, partindo de sua totalidade. O social adquire então a sua feição contemporânea: são fatos capazes de coagir e, sobretudo de não serem redutíveis a seus componentes geográficos, psicológicos, etc. Não se negam estes aspectos biológico, psicológico e geográfico do fato social ou cultural, mas não é isso que os faz socialmente significativos. Pela sociologia de Durkheim, somente quando se tornam socialmente significativos é que são levados em consideração.
O modelo a ser apresentado para a análise do ritual de iniciação maçônico não será contudo o de Durkheim, que escreveu sobre a magia e a religião, por ser o seu foco centrado na religião elementar, nas formas mais simples da vida religiosa, como também por apresentar uma polaridade rígida entre o sagrado e o profano.
O modelo escolhido será então o de Van Gennep, no seu famoso “Ritos de Passagem”. Esse autor não toma mais o rito como um apêndice do mundo mágico ou religioso, mas como algo em si mesmo. Como um fenômeno dotado de certos mecanismos recorrentes (no tempo e no espaço) e também de certos conjuntos de significados, o principal deles sendo o de realizar uma espécie de costura entre posições e domínios sociais, pois a sociedade é concebida em Van Gennep como uma totalidade dividida internamente.
Se Durkheim percebe a sociedade composta de um sistema coercitivo de regras, sobretudo as regras penais e religiosas, com uma divisão interna entre o sagrado e o profano, Van Gennep concebe o sistema social como estando departamentalizado, como uma casa, com os rituais sempre ajudando e demarcando os quartos e as salas, os corredores e as varandas, por onde circulam as pessoas e os grupos na sua trajetória social.
Concebendo a sociedade como internamente dividida, Van Gennep introduz um dinamismo no mundo social que nem vitorianos nem durkheimianos foram capazes de reconhecer. Se a divisão clássica entre o sagrado e o profano é vista como cerne e raiz do mundo social, Durkheim trabalha numa perspectiva dualista do mundo, com um jogo do sagrado ao profano, do mecânico ao orgânico, como domínios fixos e mutuamente exclusivos. Em suma, Durkheim é um evolucionista de sequências duais e também um sociólogo dos pontos polares, jamais das margens e da posições mais confusas, quando a totalidade social não se encontra nem no polo do sagrado nem do profano.
Em Van Gennep, o sagrado e o profano são totalmente relativos, pois sempre haverá um lado mais sagrado dentro da própria esfera tomada como sagrada, o mesmo sendo válido para o profano. O sentido não estará equacionado a uma essência do sagrado (ou profano), mas na sua posição relativa dentro de um contexto de relações.
Van Gennep no seu “Ritos de Passagem” estuda diversos ritos, tais como: da porta e da soleira, da hospitalidade, da adoção, da gravidez e parto, do nascimento, da infância, da puberdade, da iniciação (que nos interessará mais de perto), da ordenação, do noivado, do casamento, dos funerais, das estações, etc.
Ele separa antologicamente os ritos em três grandes subdivisões: ritos de separação, ritos de margem e ritos de agregação. Segundo Van Gennep (1978, pg.31) “essas três categorias secundárias não são igualmente desenvolvidas em uma mesma população nem em um mesmo conjunto cerimonial. Os ritos de separação são mais desenvolvidos nas cerimônias dos funerais, os ritos de agregação nas do casamento. Quanto aos ritos de margem, podem constituir uma seção importante, na gravidez, no noivado, na iniciação, ou se reduziriam ao mínimo na adoção, no segundo parto, no novo casamento, na passagem da segunda para a terceira classe de idade etc. Se por conseguinte, o esquema completo dos ritos de passagem admite em teoria ritos preliminares (separação), liminares (margem), e pós liminares (agregação), na prática estamos longe de encontrar a equivalência dos três grupos, quer no que diz respeito à importância deles quer no grau de elaboração que apresentam. Além disso, em certos casos, o esquema se desdobra, o que acontece quando a margem é bastante desenvolvida para constituir uma etapa autônoma. Assim é que o noivado constitui realmente um período de margem entre a adolescência e o casamento. Mas, a passagem da adolescência ao noivado comporta uma série especial de ritos de separação, de margem e de agregação à margem. A passagem do noivado ao casamento supõe uma série de ritos de separação da margem, de margem e de agregação ao casamento. Esta mistura é também verificada no conjunto constituído pelos ritos de gravidez, do parto e do nascimento. Embora procure agrupar todos esses ritos com maior clareza possível, não escondo que, tratando-se de atividades, não se poderia chegar nestas matérias a uma classificação tão rígida quanto a dos botânicos, por exemplo”.
Antes de terminar esta parte teórica convém tecer algumas considerações sobre o sagrado e o profano. Segundo ainda Van Gennep (pg.25) “toda sociedade contem várias sociedades especiais, que são tanto mais autônomas e possuem contornos tanto mais definidos quanto menor o grau de civilização em que se encontra a sociedade geral. Em nossas sociedades modernas só há separação um pouco nítida entre a sociedade leiga e a sociedade religiosa, entre o profano e o sagrado... Entre o mundo profano e o sagrado há incompatibilidade, a tal ponto que a passagem de um ao outro não pode ser feita sem um estágio intermediário... À medida que descemos na série das civilizações, sendo esta palavra tomada no sentido mais amplo, constatamos a maior predominância do mundo sagrado sobre o mundo profano, o qual nas sociedades menos evoluídas que conhecemos, engloba praticamente tudo. Nascer, parir, caçar etc. são então atos que se prendem ao sagrado pela maioria de seus aspectos... Se em nossas sociedades a solidariedade sexual é reduzida ao mínimo teórico, entre os semicivilizados desempenha considerável papel em consequência da separação dos sexos nas questões econômicas, políticas, e sobretudo mágico-religiosas... A vida individual, qualquer que seja o tipo de sociedade, consiste em passar sucessivamente de uma idade a outra e de uma ocupação a outra. Nos lugares em que as idades são separadas, e também as ocupações, esta passagem é acompanhada por atos especiais que, por exemplo, constituem, para os nossos ofícios a aprendizagem, e que entre os semicivilizados consistem em cerimônias, por que entre eles nenhum ato é absolutamente independente do sagrado. Toda alteração na situação de um indivíduo implica ai ações e reações entre o profano e o sagrado, ações e reações que devem ser regulamentadas e vigiadas, afim de a sociedade geral não sofrer nenhum constrangimento ou dano”.
Mircea Eliade (1958, pg.9), por sua vez, afirma que “a originalidade do homem moderno, sua novidade com respeito às sociedades tradicionais, está precisamente na vontade de considerar-se como um ser unicamente histórico, no desejo de viver em um Cosmos radicalmente dessacralizado... Em certo sentido, podemos dizer que, para o homem das sociedades arcaicas, a História está fechada, esgotadas em uns quantos acontecimentos grandiosos do começo. Ao revelar aos polinésios, in illo tempore, as modalidades da pesca em alto mar, o herói mítico esgotou de uma só vez as possíveis formas desta atividade; desde então, cada vez que vão pescar, os polinésios repetem o gesto exemplar do herói mítico: imitam um modelo transhumano”.
O homem moderno perdeu o contato com o sagrado em muitas ações diárias. Frequentemente, viajamos dentro do país e ao exterior como fatos absolutamente corriqueiros. Nas sociedades arcaicas, as viagens eram raras, e antes de viajar realizavam-se cerimônias de purificação (rito de separação) para que o viandante não se poluísse ao entrar em contato com o estrangeiro. Ao chegar ao destino, o viajor poderia ou não ser recepcionado com um banquete (rito de agregação) que significava o seu ingresso em outra dependência do sagrado.
Contudo, por mais profanos que sejamos no mundo moderno, ainda mantemos os rituais, na maioria das vezes de forma inconsciente. Observe-se, por exemplo, as despedidas dos astronautas em Cabo Kennedy, momentos antes de partir em viagem de exploração. A cerimônia de despedida não deixa de ser um rito de separação, o tensionamento da viagem está inserido num rito de margem e quando a viagem é bem sucedida o retorno triunfal se insere num rito de agregação.
Visto esta parte mais conceitual, tenta-se agora aplicar tais conceitos vangennepianos ao rito de iniciação.

Análise do Rito de Iniciação
A ânsia do sagrado no mundo moderno também faz parte do ideário do maçom que busca sair do profano em direção ao sagrado.
Uma vez iniciado, o aprendiz evade-se um pouco de um mundo essencialmente profano e ingressa numa área um pouco mais sagrada, buscando alcançar o grau de companheiro, para finalmente atingir a plenitude maçônica. A senda em busca de apaziguar esta ânsia do sagrado prossegue nos altos graus e por que não dizer só termina com a morte. Todo este período, que vai da iniciação até a morte terrena, pode ser chamado de um rito de margem ou de liminaridade, pois o processo de aprendizagem e maturação só encontrará o seu final, para efeito de análise, na morte terrena. Dentro desse período de margem de longo prazo, assistir-se-á aos mais diversos ritos de passagem de um grau para o outro.
Esta análise somente levará em conta o período de iniciação propriamente dito. A cerimônia de iniciação será, assim, o rito de passagem do mundo profano ao mundo sagrado.
Vejamos a introdução e a preparação do neófito. Denota-se já aqui um rito de separação, pois o mesmo não é separado dos metais, talvez simbolizando o despojamento de suas riquezas do mundo profano? Nem nu nem vestido simbolizando o desnudamento das vestes profanas, como num ritual de separação, pedindo humildemente o ingresso no sagrado.

A venda dos olhos simboliza a morte de um órgão vital estratégico que deverá renascer em um novo estágio de consciência compatível com um recinto mais sacralizado. A Câmara, o testamento, a prova da Terra seriam, mais uma vez, a morte do profano para um renascimento mais consciente em outra esfera do sagrado. Simbolicamente esta descida aos infernos ou pelo menos às profundezas da terra, como nos antigos mistérios greco orientais, seria rito de separação para uma longa viagem.

As outras três provas, já no interior do templo, podem ser vistas como ritos de aprofundamento de passagem, de purificação crescente, agora defronte os altares da Beleza, da Força e da Sabedoria. Podem ser analisadas como ritos de margem neste vestibular espiritual para uma esfera mais sagrada. Neste processo de alquimia mental e espiritual estaria se matando, homeopaticamente, o profano para o renascer, simbolicamente doloroso e ao mesmo tempo glorioso, do aprendiz tateante.
E aqui nos socorremos de Mircea Eliade (1958, pg. 12) quando diz que “a maior parte das provas iniciáticas implicam de maneira mais ou menos transparente, uma morte ritual se seguiria uma ressurreição ou novo nascimento. O momento central de toda iniciação vem representado pela cerimônia que simboliza a morte do neófito e sua volta ao mundo dos vivos. Mas o que volta à vida é um homem novo, assumindo um modo de ser distinto. A morte iniciática significa ao mesmo tempo o fim da infância, da ignorância e da condição profana”.
O batismo de sangue significaria o começo de um ritual de agregação, algo que na Igreja Católica se chama de Comunhão dos Santos, isto é, o iniciante depois de purificado pelas provas começaria a participar, a ser agregado simbolicamente à comunhão de todos os maçons.
O juramento teria algo do rito de margem, pois o iniciante, já agora menos poluído pelo profano e mais ciente do sagrado, teria então os pré-requisitos mínimos para um juramento mais consciente.
O nascimento o fiat lux pode ser analisado como o nascer biológico do novo ser, um rito de agregação ao mundo da Luz e da comunidade dos irmãos, que, em seguida, é batizado pelo ritual de iniciação propriamente dito. Nasce-se e imediatamente se é iniciado, sem perda de tempo, em suma, um rito sumário de agregação, a culminância do processo iniciático.
A passagem dos segredos de reconhecimento pode ser entendida como um reforço do ritual de agregação, um modo e um processo de comunicação rápido e instantâneo para melhor agregar a comunidade dos eleitos. Os aventais seriam, então, a nova vestimenta do sagrado para cobrir a nudez simbólica do ex-profano.
E por último, mas não menos importante, o banquete, que não fazendo parte direta da cerimônia do templo, insere-se num contexto de um ritual de reagregação. Aqui, já se está de volta ao mundo profano, mas como alguém que circulou pela esfera do sagrado e volta ao mundo profano aureolado pela sacralidade. É como uma espiral; deu-se um giro de 360º, mas num outro nível, outro patamar; está-se no mundo profano mas como um ser consagrado.

Conclusão
A sociedade moderna assiste, cada vez mais, ao crescimento da onda avassaladora do profano em relação ao sagrado. Os núcleos de sacralidade são como pequenas ilhas no imenso oceano do profano. Tem razão Mircea Eliade (1958, pg. 9) quando afirma que “uma das características do mundo moderno é o desaparecimento da iniciação. De capital importância nas sociedades tradicionais, a iniciação é praticamente inexistente na sociedade ocidental de nossos dias. É bem verdade que as diferentes confissões cristãs conservam, em diferentes graus, vestígios de um Mistério iniciático. O batismo é essencialmente um rito iniciático; o sacerdócio implica uma iniciação. Não se deve esquecer que o cristianismo triunfou precisamente e chegou a ser uma religião universal senão por ter se liberado dos Mistérios Greco orientais, proclamando ser uma religião de salvação acessível a todos”.
Essa tendência secular de profanização da sociedade tem encontrado, contudo, nos últimos tempos, uma busca, por parte de alguns homens, de uma volta ao sagrado, ou um revolta contra o monopólio do profano, o que talvez tenha contribuído para que L. Kolakowski escrevesse o seu famoso ensaio em 1973: “A Revanche do Sagrado na Cultura Profana”.
Talvez se assista, no limiar do século XXI, a uma revivescência espiritual. As grandes religiões, que sempre foram matrizes de moralidade exotérica, estão em crise neste final do milênio, e estão sofrendo um processo crescente de profanização de sua cultura religiosa. A luta frenética de alguns fundamentalismos, principalmente os de base muçulmana, para barrar o processo de modernização, inevitável no mundo atual, é prova cabal. Na faixa esotérica, considera-se a Maçonaria como uma das mais poderosas alavancas do sagrado no mundo laico, que avidamente necessita dos eternos valores maçônicos.
A resultante da crise deverá ser, não a negação das ciências e das liberdades humanas mais fundamentais, não uma volta ao passado preconceituoso, supersticioso e retrógrado, mas a busca de uma nova moralidade, que incorpore as raízes profundas da Verdadeira Tradição, compatibilizando-a com a Liberdade e a Ciência.
E, neste momento, cremos profundamente que a maçonaria terá um papel de escola a desempenhar.

Bibliografia
CASTELLANI, José, O Rito Escocês Antigo e Aceito, ed. Trolha, Londrina, 1988.
COIL, Henry Wilson, Coil’s Masonic Encyclopedia, Macoy, Virginia, 1995.
ELIADE, Mircea, Iniciaciones Misticas, ed. Taurus, Espanha, 1958.
ELIADE, Mircea, O Reencontro com o Sagrado, Ed. Nova Acrópole, Lisboa, 1993.
FRAZER, James George, O Ramo de Ouro, Círculo do Livro – Zahar, São Paulo, 1986.
LALANDE, André, Vocabulaire de la Philosophie, PUF, Paris, 1960.
Encyclopaedia Britannica, 30 vol., 1982
PIKE, Albert, Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry,
Charleston, 1871.
TURNER, Victor, O Processo Ritual, ed. Vozes, Petrópolis, 1974.

VAN GENNEP, Arnold, Os Ritos de Passagem, ed. Vozes, Petrópolis, 1978.

Extrraido de: http://blogomalhete.blogspot.com.br/2016/02/o-rito-de-iniciacao-uma-abordagem.html  -  Acesso em: 252042MAR16


quarta-feira, 9 de março de 2016

ASSOMBRAÇÕES MAÇÔNICOS



Imagem extraída de: gartic.com.br/shimmy/desenho-jogo/1248427516

Texto do: Ir.’. Nuno Raimundo

Começo o título do texto de hoje com a palavra "assombrações" porque de lés-a-lés surgem notícias que assombram o mundo maçônico.
Algumas vezes são verídicas e factuais, outras nem tanto, mas a maioria totalmente falsas. Contudo, as notícias que me suscitam alguma preocupação na verdade, são aquelas que são mesmo verdadeiras e que focam algo que foi feito ou envolveu de forma negativa algum membro da Ordem Maçônica.
Quando algum maçom transgride as regras da "civilização", seja através de condutas marginais ou por comportamentos ditos desviantes, e por isso mesmo passiveis de críticas por ultrapassarem qualquer tipo de razoabilidade, não será apenas o maçom em questão que sofre as consequências, mas a Maçonaria na generalidade; até porque a opinião pública irá sempre condenar a Maçonaria no seu todo e não apenas quem foi o causador da notícia ou situação em apreço.
Quando ocorrem esse tipo de situações, por norma, são sempre desenvolvidas novas teorias face às existentes bem como outras são usualmente relembradas, sejam elas verdadeiras ou falsas -para o comum dos mortais o que importa é falar, mesmo que não saiba do quê!- e são sempre lançados para a "fogueira" nomes de eventuais maçons, tenham essas pessoas ligações à Maçonaria ou não, acarretando sérios prejuízos para essas personalidades.
Naturalmente que todos os maçons condenam quem não sabe viver em sociedade, principalmente aqueles que se assumem como sendo "pessoas livres e de boa conduta", porque esses devem ter sempre algum cuidado e parcimônia nas suas ações, uma vez que estão sempre debaixo do escrutínio permanente do mundo profano.
Algo que os maçons deverão ter atenção é que devem nas suas práticas mundanas ter os mesmos comportamentos que  terão na sua vida privada, ou seja, " fazer à vista de todos o que fariam se ninguém os estivesse a observar". E ter tal noção é uma forma de limitar acontecimentos onde poderão "derrapar" ou que sejam propícias situações impróprias para os maçons, seja a nível pessoal como coletivo.
O "segredo" que é análogo à Maçonaria também fomenta tais situações, porque pode levar a pensar que a coberto de um certo tipo de secreticidade tudo se possa fazer; o que na realidade é completamente falso!
A ignorância profana sobre o que se passa no seio das Lojas Maçônicas leva à efabulação sobre o que por lá é tratado. E essa é quiçá uma das condicionantes a que todos os maçons estão sujeitos.
Normalmente quando a Maçonaria é falada nos círculos mais mundanos é quase sempre referente a teorias que pululam por aí, sobre os rituais possíveis de serem praticados ou pela eventual identificação dos membros de alguma Obediência. Mas quando algum maçom se mete a jeito, tanto pior... A mediatização que envolva um caso que envolva um maçom ou algum alegado maçom é amplamente exponenciada, mesmo que o indivíduo seja inocente ou não. A fome pela obtenção de informação sobre qualquer coisa que envolva ou toque a Maçonaria é sempre enorme.
Mas quando é tornado público situações que envolvem conflitos de egos, usurpações de poder, ambições desmedidas, projetos pessoais e afins, obviamente que a crítica é forte e incisiva, pois se a Maçonaria se assume como uma Ordem de carácter espiritual, como podem ter lugar tais comportamentos!?
Mas a verdade é que eles existem e temos de viver com eles, tentando solucioná-los da melhor forma possível e caso a caso. E estes "fantasmas" que vão aparecendo de tempos a tempos e que alimentam o descrédito que a população tem sobre a Maçonaria é sempre alvo de repúdio, inclusive interno no seio das várias Obediências.
-Os problemas entre" egos e malhetes" acabam sempre por prejudicar o "esquadro e o compasso"...-

O que me remete em jeito de conclusão para a seguinte reflexão:
Farão estas individualidades tanta falta à Maçonaria que ela não subsista sem eles ou eles é que sentem que fazem falta à Maçonaria para que esta Instituição possa progredir?!"

FONTE: A PARTIR PEDRA
(*) O Ir.'. Nuno Raimundo é membro da R.'.L.'. Mestre Affonso Domingues - Portugal


Em: http://omalhete.blogspot.com.br/2016/03/assombracoes-maconicos.html#more  -  Acesso em: 091338MAR2016.


terça-feira, 8 de março de 2016

DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES


Mulheres
Por:Vito Cesar


Mulheres serenas, promessas de nada.
mulheres de vento, de sopro divino,
mulheres de sonho, mulheres sentido,
mulheres da vida, melhor ter vivido...
Mulheres de tempo, em que tudo que havia fazia sentido,
mulheres que eu vejo, no sol de janeiro,
mulheres saídas de potes de vidro,
mulheres faceiras, as mais feiticeiras, melhor ter sorrido...

mulheres de tantos e tantos perigos,

mulheres de vinho e de vã harmonia,
mulheres convívio,
mulheres no cio, as mais parideiras, melhor ter nascido...

mulheres de luzes e de absinto,
mulheres que um dia sonhei colorido,
mulheres de santos, mulheres de igrejas,
as mais rezadeiras, melhor sacrifício

mulheres que um dia deitaram comigo,
mulheres tão lindas e de maior juízo,
mulheres de danças,
as tranças nos ombros, meus olhos caídos....

mulheres que fecham a vã poesia,
mulheres que o ouro não tem nem princípio,
mulheres de outono,
o seu abandono, melhor ter carinho...

mulheres de um tempo em que estive sozinho,
mulheres de riso abrindo janelas,
mulheres que sonham,
seu sono macio, melhor o seu ninho....

mulheres do dia e da noite, eternos,
mulheres que lutam, raízes na terra,
mulheres que as feras,
no meio da noite, não mais intimidam...

mulheres espera, no mar do abandono,
mulheres teares, tecendo seu linho,
mulheres tão loucas,
Seu beijo na boca, uma taça de vinho....


terça-feira, 1 de março de 2016

O TRABALHO FORA DA LOJA

Imagem extraída de: focoartereal.blogspot.com


Por Ir.˙. Rui Bandeira

Em Maçonaria, é essencial o trabalho realizado em Loja: a execução do ritual de abertura, através do qual todos os presentes se concentram no espaço, tempo, lugar e trabalho que vão efetuar, desligando-se das vicissitudes do mundo exterior (o mundo profano), o despachar de toda a parte burocrática e administrativa inerente ao funcionamento da Loja, a participação na ordem do dia e o ritual de encerramento, pelo qual os presentes se preparam para a saída do espaço, tempo, lugar e trabalho comuns e conjuntos e para o regresso ao mundo exterior (o mundo profano).
Mas mal andará qualquer Loja em que apenas se dê atenção ao trabalho em sessão! Este não é possível, ou, pelo menos, não é profícuo, nem sustentável, sem o trabalho que, desejavelmente, todos os maçons efetuam, em si e perante os que os rodeiam, no mundo e tempo profanos e particularmente sem o trabalho, o esforço e a dedicação dos Oficiais da Loja entre as sessões desta.
Para que os trabalhos de uma Loja decorram de forma harmoniosa e profícua, muito tem de ser preparado, estudado, trabalhado e concretizado fora de Loja. Desde as obrigações legais que a Loja tem de assegurar, ao enquadramento burocrático, passando pela aquisição, conservação e guarda dos bens e materiais da Loja, não esquecendo a execução do que se deliberou em sessão e a preparação dos assuntos a serem postos à discussão e deliberação nas sessões subsequentes, atendendo à detecção, prevenção e resolução de problemas, diferentes entendimentos ou divergentes interpretações e conflitos, reais ou potenciais, tudo tem de ser assegurado e trabalhado pelos Oficiais do Quadro da Loja entre as sessões desta.
Sem esse trabalho de triagem e preparação, tudo viria a recair na Loja, transformando as sessões desta numa sucessão de resolução de problemas, sem dar tempo, espaço e lugar ao mais importante: a criação, fortalecimento e manutenção da Cadeia de União entre os obreiros da Loja, pela qual e com a qual cada um recolhe do grupo a energia, o incentivo, a experiência, os conselhos, a solidariedade e a cooperação que lhe são úteis para o seu próprio trabalho de aperfeiçoamento e, por sua vez, dá ao grupo e a cada um dos seus integrantes sua contribuição. 
É por isso que a eleição ou designação para Oficial do Quadro de uma Loja maçônica deve ser, por todos, encarada antes do mais como um encargo e só depois como uma honra ou o reconhecimento de qualidades ou esforço do eleito ou designado. O Oficial de uma Loja maçônica não é um "graduado" que exerce autoridade sobre elementos de patente inferior, os soldados ou praças. O Oficial de uma Loja maçônica é assim designado porque lhe é confiado o exercício de um ofício, de uma tarefa. O Oficial do Quadro da Loja serve esta e os seus obreiros, através do cumprimento das obrigações do seu ofício.
Todos os maçons com um mínimo de assiduidade às sessões da sua Loja sabem quais são os deveres dos Oficiais durante as respectivas sessões - porque participam nelas e assistem ao respectivo exercício ou efetuam o exercício de um ofício. Mas o conhecimento das tarefas que os vários Oficiais do Quadro de uma Loja maçônica devem assegurar no intervalo das sessões não é tão evidente assim. No entanto, essas tarefas fora de sessão são indispensáveis para a administração da Loja, a preparação e decurso das sessões desta, o cumprimento dos objetivos de todos.
É, por isso indispensável que cada um, quando chegar a sua vez de assumir funções de Oficial do Quadro da sua Loja, tenha bem presente que as suas obrigações no exercício do seu ofício vão muito para além do desempenho ritual em Loja, pesam muitíssimo mais do que o o colar de função que cada Oficial coloca no início de cada sessão da Loja.
Basta que um ofício seja mal ou incompletamente exercido, fora de Loja, para que o equilíbrio de todo o Quadro de Oficiais seja afetado, para que a sessão da Loja seja menos produtiva ou menos agradável do que poderia e deveria ser. O desempenho do ofício fora de Loja é tão ou mais importante do que é executado em sessão. Este é só mais visível...
Fonte: A Partir Pedra


INICIAÇÃO


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

ILUSÕES DE ÓTICA NA MAÇONARIA



  1. Por: O Irmão José Maurício Guimarães é Venerável Mestre e fundador da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati, Pedro Campos de Miranda”, jurisdicionada à Grande Loja Maçônica de Minas Gerais.
  2. Extraído de: http://omalhete.blogspot.com.br/2016/01/ilusoes-de-otica-na-maconaria.html - acesso em 201255JAN2016.


Quem se preocupa com o bem estar da Maçonaria e o progresso de nossas instituições já deve ter percebido que uma parte dos que pedem iniciação nas Lojas o fazem por motivos opostos aos padrões de nossa Ordem. Haja vista a quantidade de obreiros que abandona as Lojas entre o Primeiro e o Segundo Graus. Essas estatística ninguém tem ânimo de revelar, mesmo para uma pesquisa interna fundamentada em causas e motivos. Uma ilusão de ótica pode entreter os sentidos, mas é insustentável ˗ principalmente para pedreiros (maçons) que têm o olhar refinado pelo duplo parâmetro do Esquadro e do Compasso.
Quando abordo assuntos como este, alguns se preparam para "vestir carapuças", mas a atitude correta seria a de submeterem à discussão e à pesquisa séria o controverso, ao invés de desprezarem algo que nos aflige e consome parte das nossas energias.
O problema não para por aí. Dos que permanecem nas Lojas, muitos insistem em lutar por uma fatia daquilo que erradamente consideram ser nossa Ordem ˗ uma organização que distribui benesses ou vantagens que não derivam de esforço ou trabalho.

Não me canso de falar sobre os reais objetivos da Maçonaria: em primeiro lugar, propiciar uma Iniciação com "i" maiúsculo, capaz de proporcionar àqueles que foram introduzidos no simbolismo as condições de conhecerem a si mesmos. Só depois de Conhecer a Si Mesmo o iniciado estará apto a prosseguir nos segredos revelados pelo Grau de Mestre ou prosseguir além do III. Do contrário, a Exaltação será apenas mais uma representação de princípios metafísicos inatingível para o discípulo despreparado.
Pergunto: o que é "conhecer a si mesmo" e quantos têm realizado essa "alquimia"?
O que é levantar Templos à Virtude? Façamos um exame de consciência; meçamos a profundidade das masmorras onde deveríamos sepultar os vícios:
˗ O vício ou "doença do endurecimento mental e espiritual; a doença da rivalidade e da vanglória; da vida dupla, fruto da hipocrisia típica da mediocridade e do vazio espiritual; das bisbilhotices, das murmurações e dos mexericos; da indiferença para com os outros; o vício dos círculos fechados; o vício ou doença do proveito mundano" ˗ este texto em negrito e entre aspas pertence ao discurso proferido pelo Papa Francisco à Cúria Romana (cardeais, bispos e monsenhores que formam que formam a estrutura da Igreja) nas vésperas do Natal de 2014, numa segunda-feira 22 de dezembro, classificando como doenças os desvios que arrastam as mais sublimes instituições para o abismo do materialismo.
Entre nós, os Graus de Aprendiz e o de Companheiro são feitos às pressas e no único intuito de exaltarem "a toque de caixa" um novo Mestre para compor os minguados quadros da Loja. As instruções são lidas de qualquer jeito e os trabalhos para aumento de salário, com raríssimas exceções, são cópias impessoais dos rituais, plágios de livros, cópias malfeitas da internet e arremedo do que se diz nos corredores frequentados por falsos instrutores. Mas se faltam Mestres ou Obreiros nas colunas, o motivo deve ser procurado também nos processos eleitorais que não suportam chapas de oposição nas Lojas por receio de o debate, a democracia e o contraditório esvaziarem as instituições e provocarem cisões. Pelo contrário ˗ quanto mais acirradas forem nossas discussões, mais fortalecida sai a Maçonaria. Depende também de uma legislação mais rigorosa não permitir criação de novas Lojas com minguados Obreiros; depende de as Potências estimularem a fusão e/ou incorporação daquelas que, por infelicidade, acharem-se momentaneamente impossibilitadas de cumprirem suas obrigações.
Dito isso, estou preparado para enfrentar caras amarradas e gente tola me virando as costas. Mal sabem que não estou servindo a mim mesmo e sim à Ordem em cujos altares jurei fidelidade.
Precisamos enfrentar a realidade e sairmos das zonas de conforto.    
É por causa dessas maneiras equivocadas de se tratar o processo iniciático (salvo honrosas exceções, repito) que a Maçonaria brasileira ficou confinada à contemplação do próprio umbigo, repetindo os mesmos equívocos do passado e agindo como Narciso ˗ personagem da mitologia que, encantado com a própria beleza, deitou-se na margem de um lago e definhou-se contemplando seu reflexo, até que, apaixonado por si mesmo, atirou-se na água e morreu afogado.
Um rápido olhar sobre o desenvolvimento da Maçonaria brasileira revela os fatores externos e a ambição dos "profanos de avental" que dessacralizaram nossos Templos com discursos enviesados.
Na primeira na década de 1830, marcada pelas hostilidades dos políticos brasileiros contra os portugueses, houve a "queda de braço" entre Gonçalves Ledo e José Bonifácio somadas às sucessivas trocas ministeriais que levaram o Grão-Mestre, D. Pedro I, a afastar-se do Grande Oriente e abdicar do trono. O poder maçônico e imperial caíram nas mãos de José Bonifácio que conduziu a Maçonaria brasileira a seu modo discricionário.
Esse estado de coisas permaneceu até a Proclamação da República ˗ segunda fase ˗ a partir de quando os dois primeiros Presidentes ˗ de 1889 a 1894 ˗ foram maçons militares, Deodoro e Floriano ˗ este último denominado "marechal de ferro" por ter praticado uma "ditadura de salvação nacional", salvação essa que colocou os melhores e mais esclarecidos maçons da época na periferia, com a consequente guindagem de personalidades inexpressivas (exatamente como acontece hoje, em alguns setores da Ordem e da República, quando os mais capazes são hostilizados em tudo o que pretendem empreender). Tanto Deodoro quanto Floriano foram mais militares a serviço das elites do que maçons a serviço do povo brasileiro. Os Irmãos José do Patrocínio (jornalista e abolicionista) e Carlos Gomes, imortal compositor, foram vítimas da retaliação maçônico-republicana. Patrocínio foi "marcado" pelo "irmão" marechal que o deportou para Cucuí, no alto Rio Negro. Para o longínquo norte também foi "despachado" o genial Carlos Gomes por ter se recusando compor um hino para a República; apesar do estrondoso sucesso alcançado na Europa com a ópera "Il Guarany", Carlos Gomes teve suspensa sua nomeação para o Conservatório de Música do Rio de Janeiro, sendo despedido para o Pará, sendo vigiado pelo governo de Lauro Sodré, também maçom, etc. e tal (1)
Na terceira fase ˗ que vai de Prudente de Morais (1894) até Washington Luís (1930) ˗ oito entre os onze Presidentes da República foram os chamados "poderosos Irmãos", mais preocupados em acumular a tríplice função de chefe do governo republicano, Grão-Mestre do simbolismo e Grande Comendador de algum Rito. Ainda hoje os desavisados usam o tratamento "poderoso irmão" sem se darem conta da infeliz conotação dessa expressão nascida do abuso de poder e ilegítima acumulação de funções na nascente República do Catete (2).
Essa situação confusa e incoerente terminou em 1930 quando Getúlio Vargas destituiu o Presidente maçom, Washington Luís, e mandou que os ministros militares o prendessem no Forte de Copacabana. No mesmo período, Mário Behring ˗ já distanciado do GOB ˗ vinha consolidando as Grandes Lojas (1927) como Potências independentes desvinculadas de disputas políticas no âmbito da República.
A quarta fase durou uma geração inteira, aproximadamente 35 anos, arrastando-se penosamente até a década de 60, época em que a Maçonaria brasileira cuidou apenas de conflitos internos, arengas e bate-bocas. As Grandes Lojas e o Grande Oriente não fizeram mais do que administrarem acusações, chiliques e melindres entre homens com "barba na cara" (mais ou menos como ainda hoje, em pleno Século XXI, quando vicejam as camélias, plantas da família das Theaceae, cuja flor mimosa pode durar vários dias, desde que não se lhes toque as graciosas corolas, pois quando tocadas, cobrem-se de manchas amarronzadas que comprometem a livre expressão do pensamento). Enfim: essas suscetibilidades, a inveja e os afetados impediram que qualquer projeto verdadeiramente maçônico fosse levado adiante.
A quinta fase coincide, por conseguinte, com os anos de chumbo da ditadura militar (de 1964 até a promulgação da Lei da Anistia em 1979). Diante da repressão, os valentões de nossa Ordem emudeceram e dedicara-se às comemorações festivas; houve pouquíssimas e pontuais reações.
Vivemos hoje a sexta fase em solo brasileiro: uma jovem democracia de 37 anos inserida em quase 200 anos de Maçonaria... e 127 de República: uma organização construída sobre os escombros de lutas fratricidas e na disputa pelos primeiros cargos em todos os seus segmentos ˗ uma "autofagia"(3), no conceito dos historiadores Marco Morel e Françoise Jean de Oliveira Souza.
A sociedade de hoje ˗ acostumada com a ideia de que nós maçons somos os paladinos da Liberdade ˗ vem perguntando sobre o que temos feito de concreto, nos últimos 50 anos, pelas causas sociais e o desenvolvimento harmonioso da República Brasileira; vem questionar sobre projetos sólidos para o futuro... e temos que reconhecer nosso despreparo, seja em orientarmos a geração atual, e as próximas, quanto ao protagonismo e direitos próprios dos cidadãos ˗ mesmo porque não é papel da Maçonaria fazer lobby(4) ou tentar exercer influência direta nos poderes da República. Não temos projeto algum, apenas ações pífias e de consenso, levadas adiante penosamente pelos grandes idealistas.
Só quando levantarmos os olhos dos próprios umbigos e tivermos coragem de dizer NÃO aos "donos da Maçonaria" e ao mesmismo é que ficaremos conscientes das areias movediças nas quais fomos abandonados.
a) O senso de pertencimento como se fossemos "paladinos de alguma coisa". Infelizmente só alguns se destacam por utilizarem os "canais iniciáticos" da Maçonaria como mecanismos de atribuição pessoal, "validando" uma proeminência que, de outra forma, não conseguiriam. São atitudes, espalhafatosas e extravagantes, mórbidas e risíveis demonstrações da superestima de suas potencialidades. Só não as percebem os que, destituídos de ponderação, cometem tamanha imprudência.
b) A falta do diálogo interno, pela superabundância de instâncias mal copiadas do mundo profano, e o descuido com o que de mais sagrado é assegurado ao postulante no Grau de Aprendiz: a garantia da busca constante da verdade sem obstáculos institucionais ou censuras, mediante o constante exercício da tolerância e defesa da liberdade de pensamento.
c) O crescente predomínio dos meios da comunicação eletrônica e a velocidade das informações diminuiu nossa capacidade de concentração e estudo. De todas as classes sociais acorre uma geração informatizada antes de ser completamente educada ou instruída, especialistas em manipular celulares ligados durante as Sessões. Somos muitos grupos em WhatsUp e poucos interessados no profícuo convívio da Instrução, a exemplo do que realizam as Escola Maçônicas e as Lojas de Estudo e de Pesquisas, também levadas adiante por idealistas que não se curvam no altar da subserviência.
A própria Maçonaria nos aconselha o melhor antídoto para a cura desses males ˗O VOTO (secreto e universal), livre e corajoso. Esta é a "arma" pacífica contra o continuísmo para que, no futuro, haja avaliações de desempenho e valorização do mérito (que é princípio universal maçônico). Por que não? Não é dessa forma que funcionam as instituições democráticas e as normas constitucionais republicanas?
Somos todos responsáveis pelos Irmãos que, desavisados, frequentam as Lojas 'como terapia de alívio da sobrecarga existencial, encarando a Maçonaria como o refúgio para a prática inconsciente do drama de suas angústias pessoais a ponto de se transformarem em "autômatos freudianos", praticando a solidariedade apenas pela necessidade de estarem juntos, sem a consciência de saber o porquê e a finalidade de estarem juntos' (conforme o alerta de Rosemiro Pereira Leal em seu livro "Morfologia do Rito Maçônico", p. 150; citado no meu livro "Grande Loja Maçônica de Minas Gerais-História, Fundamentos e Formação", p. 29).
Ilusões de ótica não se sustentam.
"Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos por todo tempo".  Dizem que a frase é de Abraham Lincoln; se não for de Lincoln, fica sendo minha, e pronto.
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(1) embora alguns evitem falar no assunto ou "esquecer o fato", Floriano Vieira Peixoto foi iniciado na Loja “Perfeita Amizade”, de Maceió, em  1871, confirmando o que já foi dito sobre os aventureiros que "entram" na Sublime Ordem em busca de vantagens que não demandem esforço, trabalho ou inteligência.
(2) Catete: nome de um bairro nobre da Zona Sul, no município do Rio de Janeiro, onde o Palácio do mesmo nome, outrora sede do presidência da república.
(3) autofagia: ato de autodestruição pelo nutrir-se da própria carne. Marco Morel usou o termo em entrevista a O Estado de S. Paulo após o lançamento do livro "O Poder da Maçonaria" (Editora: Nova Fronteira, 2008); e define a Maçonaria brasileira como "um espaço de disputa, de embate. Os chamados republicanos da época e outras tendências também estavam no espaço maçônico, disputando." É dever de cada um de nós estarmos preparados e bem instruídos para apagarmos essa ideia que faz de nós a sociedade.
(4) "lobby" é a "atividade de pressão de um grupo organizado sobre políticos e poderes públicos, que visa exercer sobre estes qualquer influência ao seu alcance, mas sem buscar o controle formal do governo" (Dicionário Houaiss).
(5) refiro-me à instrução maçônica em sentido amplo: ritualística, moral, cavalheiresca, espiritual e organizacional (não confundir cavaLHeiresca com cavaleiresca; enquanto cavaLHeiresco refere-se à pessoa educada, digna e ilustre, cavaLEIresco é relativo ao que cavalga, o montador, próprio de quem dirige o cavalo, muar ou burro, arrastando-o pela rédea, estimulando pelo chicote ou acicatando pelas esporas. Vejam como um sutil letra 'H' pode estragar tudo.



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O SIMBOLISMO NA MAÇONARIA DE 1822


Imagem extraída de: naterradospapagaios.blogspot.com
 
 
Cansados e saturados por dois séculos de guerras político-religiosas, desiludidos das religiões, ditas reveladas, que as tinham provocado, produzindo um verdadeiro caos nos costumes morais e religiosos do povo inglês, os Maçons Especulativos, surgidos em princípios do século XVIII, voltaram as vistas para o simbolismo das religiões da antiguidade, tentando redescobrir os Símbolos do passado e o seu conteúdo doutrinário e iniciático, deturpado, desfigurado e velado pela ignorância eclesiástica medieval e pelos sofismas dos doutores escolásticos.

Em consequência dos estudos empreendidos pelos estudiosos, formou-se a Simbólica Maçônica. Nela são compreendidos Símbolos das mais variadas origens e procedências, que podem ser divididos em cinco classes principais:

 

a) Símbolos místicos e religiosos tradicionais: o Tau (símbolo do poder); o Círculo com um ponto central (Sol); o Selo de Salomão ou Escudo de Davi (criação, Deus, perfeição); o Triângulo, o Delta Luminoso, os Três Pontos (sempre evocando a ideia de Deus) etc.

b) Símbolos tirados da arte da construção: Símbolos da profissão dos Maçons Operativos: o Compasso (medida na pesquisa); o Esquadro (retidão na ação); o Malho (vontade na aplicação); o Cinzel (discernimento na investigação); a Perpendicular (profundeza na observação); o Nível (emprego correto dos conhecimentos); a Régua (precisão na execução); a Alavanca (poder da vontade); a Trolha (benevolência para com todos); e o Avental (símbolo do trabalho constante) etc.

c) Símbolos herméticos e alquímicos: o Sol e a Lua; as Colunas B e J; os três princípios da Grande Obra: Enxofre, Mercúrio e Sal; e os quatro elementos herméticos: Ar, Água, Terra e Fogo; o Vitriol etc.

d) Símbolos possuindo um significado particular: a Romã (simbolizando os Maçons unidos entre si por um ideal comum); a Cadeia de União (a união fraternal que liga por uma cadeia indissolúvel) todos os Maçons do globo, sem distinção de seitas e condições); a Estrela Flamejante (a iluminação); a Letra G (conhecimento); o Ramo de Acácia (imortalidade e inocência); o Pelicano (amor e abnegação) etc.

e) Outros Símbolos tradicionais: pitagóricos (números); cabalísticos (sefirot); geométricos, religiosos, e todos aqueles que se prestaram a um significado maçônico.

De acordo com os seus pontos de vista particulares, estes Símbolos são vistos pelos Maçons, seja como elementos de Iniciação, com significados esotéricos, seja como fórmulas morais, comportando significados educativos. De qualquer maneira, as ideias representadas por estes Símbolos devem ser admitidas por todos os Membros da fraternidade maçônica, sem o que não podem ser considerados verdadeiros Maçons. O Nível, por exemplo, representa também a ideia de igualdade, obrigatória entre os Maçons. O Esquadro é o emblema da retidão e do direito, princípios que devem ser obrigatoriamente respeitados por todos os Maçons. O Malhete é o símbolo da autoridade do Venerável e personifica a disciplina nos trabalhos que todo Maçom é obrigado a admitir. E, além de representarem fórmulas ou ideias morais, os Símbolos são uma espécie de linguagem que une os Maçons entre si por serem a expressão de ideias comuns a todos eles.

 

É este o sistema adotado pela Maçonaria, diz Mackey, para desenvolver e inculcar as grandes verdades religiosas e filosóficas, de que foi, por muitos anos, a única conservadora. E é por essa razão, como já observei, que qualquer investigação dentro do caráter simbólico da Maçonaria deve ser precedida por uma investigação da natureza do simbolismo em geral, se quisermos apreciar, convenientemente o seu uso particular na organização maçônica.

Em sua “Encyclopedia of Freemasonry”, o sábio Albert Galatin Mackey prefere ir mais longe:

“A Maçonaria é um sistema de moralidade desenvolvido e inculcado pela ciência do simbolismo. Este caráter peculiar de instituição simbólica e também a adoção deste método genuíno de instrução pelo simbolismo, emprestam à Maçonaria a incolumidade de sua identidade e é também a causa dela diferir de qualquer outra associação inventada pelo engenho humano. É o que lhe confere a forma atrativa que lhe tem assegurado sempre a fidelidade de seus discípulos e a sua própria perpetuidade.“

De fato, a Maçonaria adotou o método de instrução, ela não o inventou.

A simbologia é a ciência mais antiga do mundo e o método de instrução dos homens primitivos. É graças a ela que tomamos conhecimento hoje, da sabedoria dos povos antigos e dos filósofos. O acervo religioso, cultural e folclórico da humanidade está preservado através do simbolismo, desde a pré-história.

O princípio do pensamento simbólico está fincado em uma época anterior à história, nos fins do período paleolítico. Os mestres da humanidade primitiva, podem ser facilmente localizados, através de estudos sobre gravações epigráficas.

A Maçonaria é a legítima herdeira espiritual das sociedades iniciáticas da antiguidade, porque perpetua o tradicional método de instrução, no ensinamento de suas doutrinas.

Em 02 de agosto de 1822 é Iniciado D. Pedro I, o Imperador do Brasil e seu segundo Grão-Mestre.


FONTE: MS MAÇOM

BRESLAUER, A. F., The Master’s Handbook. 10a edição. Grand Lodge F&AM of California, 1984.
BULLOCK, S. C., Revolutionary Brotherhood: Freemasonry and the Transformation of the American Social Order, 1730–1840, Chapel Hill, 1996.
CARR, Harry. Samuel Prichard’s Masonry Dissected. 1730. Reedição. Bloomington, Ill.: Masonic Book Clube, 1977.
CASTELLANI, J. Do Pó dos Arquivos. Londrina: Editora A Trolha, 1996.
CASTELLANI, J. Os Maçons e a Independência do Brasil. Londrina: Editora A Trolha, 1993.
CASTELLANI, José. A Ação Secreta da Maçonaria na Política Mundial. São Paulo: Ed. Landmark, 2007.
CASTELLANI, José. Fragmentos da Pedra Bruta. Londrina: Editora A Trolha, 2003
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